A tarefa de substituir componentes de fórmulas produtos exige equilíbrio entre eficácia, segurança e apelo de mercado, passando longe de ser somente uma troca de nomes em rótulos
Por Elaine Oliveira *, da Be Clean
Nos últimos anos, a indústria cosmética tem enfrentado uma pressão crescente para substituir ingredientes considerados controversos. É importante destacar que “controverso” não significa necessariamente proibido ou inseguro dentro dos limites regulamentares, mas sim que há questionamentos sobre segurança, impacto ambiental ou percepção do consumidor. Dentro desse contexto, reformular produtos exige equilíbrio entre eficácia, segurança e apelo de mercado. Ou seja, não é tarefa simples.
Talco dando lugar a amidos, fórmulas sem BHT ou sabonetes sem sulfatos: ingredientes conhecidos dos cosméticos vêm ganhando alternativas, e as promessas chamam a atenção por afirmarem causar menos irritação, levar a menos preocupações com a segurança e abrir caminho para novas possibilidades de formulação. Mas o que acontece nos bastidores dessas mudanças? E por que substituir um ingrediente não é tão simples quanto retirar um nome do rótulo?
Cada componente tem um trabalho a fazer. Se um sai, outro precisa assumir sua função sem comprometer o produto. É aí que entram a pesquisa, os testes e os custos. Para entender o que se espera dessas trocas, e os desafios que elas trazem, vamos a alguns exemplos.
Do talco aos amidos
O talco ajuda a absorver umidade e dá aquele toque deslizante a pós e maquiagens. Aqui, a controvérsia envolve a possível contaminação por amianto e a inalação de partículas. Há ainda a classificação da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), que considera o talco provavelmente cancerígeno para humanos. Essa avaliação vai além da contaminação por amianto, mas não significa que todo cosmético com talco cause câncer. [1]
Amidos de milho, arroz ou tapioca são alternativas que permitem formular sem esse mineral. O ganho é afastar as preocupações específicas ligadas ao talco. O desafio? Manter a absorção, a aderência e a facilidade de espalhar. E os pós vegetais também exigem controle microbiológico e atenção à inalação: trocar a origem não elimina todos os cuidados.
BHT e vitamina E
Em cosméticos com óleos e gorduras, o BHT atua como antioxidante: ajuda a retardar a deterioração que pode alterar o cheiro e a qualidade do produto. Sua possível interferência no sistema hormonal é uma das razões para a busca por alternativas. Essa suspeita não equivale a dano comprovado no uso cosmético; o comitê científico europeu o considerou seguro nas concentrações e nos usos avaliados; [2]
Contudo, o tocoferol, uma forma de vitamina E, é uma opção interessante para proteger os óleos e não apresenta, nas avaliações citadas, a mesma suspeita endócrina discutida para o BHT. Mas a troca precisa funcionar até o fim da validade. Dependendo do óleo, da concentração e da exposição à luz e ao calor, pode ser necessário combinar antioxidantes ou repensar a embalagem. [2, 3]
Sem SLS: buscando limpeza suave
O lauril sulfato de sódio, ou SLS, ajuda a remover sujeira e oleosidade, mas pode provocar ressecamento e irritação. Alternativas como Sodium Cocoyl Isethionate e Decyl Glucoside podem fazer parte de sistemas de limpeza mais suaves. O benefício esperado é limpar com melhor tolerância da pele. [4]
Só que a espuma, a textura e a capacidade de limpeza também mudam. A equipe de desenvolvimento precisa equilibrar tudo isso. Por isso, “sem sulfato” não garante, sozinho, um produto suave: a combinação completa importa, e as alternativas também podem causar reações. [4]

Sem espaço para microrganismos
A DMDM Hydantoin atua como conservante por meio da liberação gradual de pequenas quantidades de formaldeído, substância classificada pela IARC como carcinogênica para humanos [8]. Embora as concentrações liberadas em cosméticos sejam baixas, esse mecanismo é frequentemente apontado como um fator de preocupação devido ao potencial de indução de alergia de contato em indivíduos sensibilizados. Em contrapartida, sistemas conservantes baseados em Glyceryl Caprylate, Glyceryl Undecylenate e Pentylene Glycol constituem alternativas amplamente avaliadas que não dependem da liberação de formaldeído. [5, 6]
O principal benefício dessas alternativas é eliminar a dependência desse mecanismo de conservação, mantendo a proteção microbiológica do produto. No entanto, é essencial demonstrar que a formulação continua eficaz no controle de bactérias, leveduras e fungos. Para essa finalidade, realiza-se o Teste de Eficácia do Sistema Conservante (Challenge Test), que avalia a capacidade do produto de controlar microrganismos inoculados experimentalmente em condições de laboratório. Os resultados obtidos para uma formulação específica não podem ser extrapolados automaticamente para outra, uma vez que a eficácia do sistema conservante depende da composição completa da fórmula. Dessa forma, a definição das matérias-primas e concentrações adequadas é uma etapa crítica do trabalho de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). [6]
Fazendo a troca dar certo
Substituir é possível, mas exige mais do que escolher um ingrediente com boa reputação. Estudos de estabilidade acompanham mudanças de cor, cheiro, textura e acidez ao longo do tempo e em diferentes condições. A embalagem também entra nessa avaliação. O objetivo é manter qualidade e desempenho durante a validade. [7]
Na conta entram matérias-primas, quantidades necessárias, testes, fornecedores e ajustes de fabricação. Uma alternativa pode custar mais por quilo e exigir menos quantidade, ou precisar de outros ingredientes para funcionar. Por isso, o custo deve ser avaliado na fórmula inteira. A melhor troca é aquela cujo benefício se confirma sem comprometer segurança, eficácia e viabilidade.
E você: já escolheu um cosmético porque ele era “livre de” algum ingrediente? Qual dessas substituições despertou sua curiosidade? Deixe seu comentário!
Referências
1. IARC. Talc and Acrylonitrile. IARC Monographs, v. 136, 2025.
2. SCCS. Opinion on Butylated Hydroxytoluene (BHT). SCCS/1636/21, 2021.
3. CIR. Safety Assessment of Tocopherols and Tocotrienols as Used in Cosmetics. 2014.
4. Su, E. et al. Beyond Sulfate-Free Personal Cleansing Technology. Cosmetics, 12, 14, 2025.
7. ANVISA. Guia de estabilidade de produtos cosméticos. Brasília, 2004.
* Elaine Oliveira é química, cosmetóloga e farmacêutica, atuando como Gestora de Pesquisa de Segurança de Produtos e Ingredientes na Be Clean.
