O termo “fragrância clean” virou tendência, mas será que ele representa mesmo um padrão de segurança ou é apenas mais uma estratégia de marketing?
Por Patricia Silveira*
Há anos a relação entre os produtos que aplicamos na pele e os efeitos sistêmicos que eles podem desencadear é algo que detém a atenção de parte da comunidade científica e de alguns poucos dermatologistas. Entre todos os ingredientes de um cosmético, as fragrâncias estão entre os que mais me preocupam, não apenas pela sua alta toxicidade ou pela frequência com que são usadas, mas pela opacidade com que são tratadas pela indústria.
Uma revisão publicada no Journal of Xenobiotics em 2023 sintetizou o conhecimento atual sobre o impacto das fragrâncias sintéticas na saúde humana: os autores descrevem que essas substâncias podem desencadear uma série de efeitos adversos cutâneos, respiratórios e sistêmicos, incluindo dores de cabeça, crises de asma, dificuldades respiratórias, problemas cardiovasculares e neurológicos. O estudo também aponta que as patologias relacionadas a perfumes sintéticos estão associadas a reações alérgicas e, potencialmente, a perturbações de natureza endócrina, imunológica e até neural.
Qual é o problema?
Os ftalatos são um dos principais vilões deste cenário. Utilizados como fixadores e solventes em fragrâncias, essas substâncias estão entre os ingredientes tóxicos mais relevantes em produtos aromáticos e estão associadas a alergias, disfunções hormonais e até mesmo ao câncer de mama. Outra revisão sistemática, publicada em 2022, identificou que ftalatos, aldeídos, parabenos e sais à base de alumínio são os principais contaminantes encontrados em perfumes e colônias, com efeitos colaterais que vão desde reações alérgicas até alterações endócrinas. Em corpos masculinos, certos ftalatos foram associados ao início precoce da puberdade, a problemas no desenvolvimento genital e à redução da qualidade do esperma. A exposição pré-natal a altos níveis dessas substâncias já foi relacionada a efeitos negativos no desenvolvimento neurocognitivo das crianças e a um risco aumentado de problemas metabólicos.
Além disso, as fragrâncias são uma das principais causas de dermatite de contato alérgica. Fragrâncias e conservantes são os dois alérgenos mais relevantes em cosméticos. Estudos mostram que o Lyral ciclohexal (um dos compostos mais usados em fragrâncias) e outros ingredientes como citral, farnesol e citronelol estão entre os que apresentam maior reatividade em testes de contato. As reações mais comuns incluem dermatite nas mãos, sendo que talcos perfumados, sabonetes e perfumes estão entre as principais fontes de sensibilização.
Outro ingrediente aromático, o Lilial Butylphenyl Methylpropional, proibido na União Europeia desde 2022, foi restrito pela Anvisa somente este ano, em 2026, mas ainda conta com prazo de dois anos de flexibilização para que a indústria faça as substituições necessárias nos produtos vendidos ao consumidor. Causa danos ao desenvolvimento fetal, infertilidade e alterações endócrinas.
Início da solução “clean”
Quando esse cenário começou a ser reconhecido pela opinião pública, o mercado respondeu com uma promessa que parecia ser quase uma salvação: as chamadas “fragrâncias sintéticas clean”. Acontece que, do ponto de vista científico e regulatório, esse termo não significa absolutamente nada. Não existe qualquer padronização no mundo todo para o que seria uma fragrância “clean”. Trata-se de um conceito criado pelo mercado da indústria de cosméticos, sem respaldo em normas técnicas ou definições objetivas pré-definidas.
O que a maioria das marcas clean faz, na prática, é afirmar que suas fragrâncias não contém ftalatos e parabenos — dois grupos de ingredientes amplamente criticados por seus efeitos como disruptores endócrinos. Mas não informam o que foi usado no lugar. E a maior parte das empresas não apresenta qualquer contraprova laboratorial, como uma análise cromatográfica, que comprove a ausência desses ingredientes ou que revele quais outros compostos foram adicionados à fórmula.
Laboratórios independentes já flagraram fragrâncias “clean label” de grandes marcas estadunidenses contendo outros componentes químicos aromáticos, conservantes e compostos orgânicos voláteis que não estavam declarados no rótulo. Em alguns casos, foram encontrados ftalatos em produtos de marcas que se auto declaravam livres dessas substâncias. Ou seja, infelizmente o que está no rótulo nem sempre é o que está no frasco.

E o que devemos fazer?
Essa ausência de transparência não é um acaso. A premissa do “segredo industrial”, que é prevista em diversas legislações, incluindo a brasileira, livra as empresas da obrigação de expor a lista completa de ingredientes de suas fragrâncias. A maioria não descreve quais são os compostos aromáticos, os óleos essenciais sintetizados, os conservantes ou os fixadores que usam. E, como eu costumo dizer: se não há transparência, não deveria ser considerado clean. Uma fragrância realmente clean deveria descrever quais são seus componentes químicos, mesmo que não venham de origem natural, mas desde que sejam comprovadamente seguros.
Então, o que fazer? Em primeiro lugar, desconfie do termo “clean” quando ele não vier acompanhado de informações concretas. Em segundo, analise seu próprio uso de fragrâncias no dia a dia. Produtos enxaguáveis, como sabonetes e shampoos, tendem a ter um impacto menor do que aqueles que ficam em contato prolongado com a pele, como cremes corporais e, especialmente, os desodorantes, pois a região das axilas tem alta capacidade de absorção. Observe também a posição do ingrediente “fragrância” ou “parfum” na lista INCI do seu cosmético: quanto mais perto do início, maior a concentração.
Mas o mais importante: se ter informação significa poder tomar decisões melhores e mais conscientes, não substitua o auxílio e esclarecimento que um dermatologista cosmetólogo pode lhe oferecer. Essa pode ser a chave para conseguir equilibrar o desejo entre consumir aquele cheirinho do qual tanto gostamos e fazê-lo com a segurança de que não estamos nos prejudicando sem querer.
* Patricia Silveira é médica dermatologista, especialista em Dermatologia clínica pela UFRJ, membro titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia desde 2002, pós-graduada em Medicina chinesa pela UFF, pós-graduada e professora de Fitoterapia avançada na USP.
